O secretário Roger Augusto destaca a importância de prevenir e promover a saúde.
Diário do Sul – Como o senhor avalia estes seus quase três anos à frente da secretaria de Saúde de Tubarão?
Roger Augusto – É difícil dizer o que de mais importante foi feito na Saúde porque é difícil até dizer o que é importante nesta área. Para listar tudo o que foi feito, seria preciso muitas páginas, porque foram várias ações que melhoraram postos de saúde, por exemplo. Existe uma diferença entre o que as pessoas querem e pedem e o que elas efetivamente precisam, embora as duas coisas andem juntas. O nosso desafio é aproximá-las. Fazer o que as pessoas precisam e atender. Nosso maior desafio foi juntar isso. A maioria das pessoas quer basicamente três coisas: médico, exame e remédio. Com isso, você atende a saúde. Médico no posto para atendê-las, exame para chegar ao diagnóstico e remédio para tratar. Mas a Saúde vai além disso.
Diário do Sul – O que as pessoas pedem atende apenas a necessidade imediata?
Roger – Nós precisamos, ao longo do tempo, trabalhar com a conscientização. A ideia sempre foi, primeiro, atender a estas três demandas. E, neste sentido, avançamos bastante. No atendimento médico, fortalecemos as unidades de saúde. Ainda existem problemas, sempre há o que resolver, mas hoje temos 28 Equipes de Saúde da Família (ESF) e vamos terminar o governo com mais de 30. Isso significa quase 90% de atendimento às famílias, o maior índice entre as grandes cidades. Isso atende a demanda de ter médico na comunidade. Quanto à necessidade de termos remédio, sempre trabalhamos em parceria com a Unisul para a realização de seminários. Montamos uma comissão permanente de assistência farmacêutica para ver qualidade e os itens que devem ser incluídos e modificamos os processos de controle interno. Criamos uma relação municipal de medicamentos, uma lista com os remédios que existem no sistema público de Saúde. Quanto aos exames, a situação melhorou com o consórcio CIS-Amurel. As cotas do Estado e do governo federal aumentaram ao longo dos anos e nós aumentamos as de quase todas as nossas unidades. Mas com o consórcio, resolvemos problemas de maior complexidade, como tomografias, raios-X e exames de laboratório.
Diário do Sul – E o que as pessoas precisam, mas não pedem?
Roger – Esse é o grande diferencial do nosso trabalho. Por exemplo: ações simples e que não custam muito, como o projeto de caminhadas. Ninguém vai reclamar da saúde porque não existe um projeto desses, mas as pessoas que fazem parte desse projeto dão relatos incríveis: “Isso mudou a minha vida. Eu estava deprimida e hoje estou bem, com muito mais saúde, disposição”. Isso de pessoas de 70 anos. Essa é uma experiência que deu certo e precisamos ampliar, levar para os bairros e aumentar o número de pessoas que fazem. Essa é uma ação que as pessoas não esperam e não pedem, mas melhora a saúde. Também investimos muito em campanhas de divulgação para a prevenção de câncer de mama e colo de útero. Em 2008, nós realizamos cerca de 1,8 mil exames de mamografia; em 2009, tivemos campanha e chegamos a 3,6 mil; em 2010, a 5 mil; e em 2011 vamos fechar provavelmente com quase 7 mil. Ao longo dos anos, conseguimos que mais mulheres tivessem uma ação preventiva. E muitas delas não procurariam isso, por falta de informação. As pessoas não têm a cultura da prevenção e da promoção de saúde. Elas querem exame e remédio para resolver o problema.
Diário do Sul – O fato de o prefeito Manoel Bertoncini ser
médico auxilia o seu trabalho?
Roger – Acredito que sim. O Manoel é médico e já foi
secretário de Saúde. Então, ele conhece a realidade e as dificuldades, já sentiu na pele as demandas. E eu tenho que sempre agradecer o apoio que ele tem dado para fazermos as nossas ações. Sempre tivemos muita liberdade, e isso faz a diferença.
Diário do Sul – A construção da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) 24 horas segue essa linha?
Roger – Temos planejado várias ações estruturantes. Devido à burocracia do serviço público, o pronto-atendimento demorou muito mais do que a gente esperava. Esse é o grande gargalo, em todos os níveis do governo: a burocracia. No municipal, no estadual e no federal, ela atrapalha muito os processos internos do sistema público. Mas a partir do momento em que se abrir uma unidade de referência em atendimento de urgência e emergência, deixa-se o hospital com a sua função de atendimento terciário, de alta complexidade, tirando da emergência o paciente cujo problema pode ser resolvido com um serviço de menor intensidade e dando mais qualidade ao atendimento para toda a região. Essa é uma das ações estruturantes mais importantes, como a união do Samu com o Corpo de Bombeiros. Eu tenho certeza de que ela vai servir de exemplo, a longo prazo, para todo o Estado e até para o país. O sistema de saúde precisa ter uma central única de atendimento de urgência e emergência. É uma questão cultural e que vai precisar de tempo, mas vai acontecer aos poucos. Não faz sentido ter dois serviços que não estão interligados. A união do espaço físico foi um primeiro passo, e isso vai avançar para uma central única de ligação e união de logística.
“Tenho 33 anos e tempo para fazer o que mais gosto, que é ser médico. Se algum dia achar que posso ajudar, participo de um processo eleitoral”.
Diário do Sul – A criação do Caps-AD também tem esse caráter?
Roger – Nós não tínhamos um ambulatório para atendimento de dependentes químicos em Tubarão, e essa era uma reivindicação de mais de 20 anos. Ele precisa melhorar e evoluir, mas já está atendendo e recebe mais de 200 pacientes por mês em atendimento ambulatorial, acompanhamento ao longo do dia. Se nós virmos a dependência química como um dos grandes males da sociedade, porque não afeta apenas a saúde, mas também a educação e a segurança pública, por exemplo, é uma ação estruturante pensando a longo prazo, desde que se aumente o investimento. É benefício para toda a cidade. É claro que é uma ilusão achar que vamos acabar com o problema das drogas abrindo um ambulatório, porque o dependente químico tem um tratamento difícil, dificuldade em aceitar o tratamento. Isso demora, só se resolve a longo prazo.
Diário do Sul – Quais as perspectivas para o Centro de Zoonoses?
Roger – O Centro de Controle de Zoonoses, que já recebeu investimento para a estrutura física de cerca de R$ 300 mil e vai receber mais ao longo dos anos para a estrutura interna ser equipada e os profissionais serem treinados, já em 2012. Ao longo dos anos, vamos notar as diferenças, não vamos colher os frutos imediatamente. Se nós esterelizarmos os cães, vamos ver os resultados daqui a cinco ou dez anos, porque ele pode voltar para a rua, mas não vai se multiplicar. Mas para eliminar os problemas de cães de rua e outros animais vetores de doenças precisamos de parcerias. Nada adianta se não tivermos educação, adoção responsável, controle para que não se solte cães na rua.
Diário do Sul – O senhor está atuando pela primeira vez no serviço público. Qual a impressão?
Roger – Eu acredito que seja papel dos políticos do futuro organizar a burocracia do setor público. Não apenas os executivos, mas também os vereadores, deputados e senadores terão que criar medidas que impeçam a criação de gargalos que atrasam processos importantes. Vai chegar uma hora em que vai ser inviável. É preciso manter o controle, mas tornar o processo mais ágil. Mas essa experiência representou um aprendizado que muda para melhor a minha vida como médico. As questões políticas são importantes, mas precisamos separar a política pública da politicagem, do jogo de interesses relativo ao poder. Isso não me agrada, mas a política pública de saúde me agrada e vou sempre participar dela.
Diário do Sul – Isso o motivou a não se filiar a nenhum partido e, portanto, não se candidatar nas eleições do ano que vem?
Roger – A minha decisão de não ser candidato não tem necessariamente a ver com isso. Tem a ver com uma escolha pessoal. Tenho 33 anos e tempo para fazer o que eu mais gosto, que é ser médico. Se algum dia achar que posso ajudar, participo de um processo eleitoral. Mas hoje não é a minha intenção e, por isso, não preciso estar filiado a partido algum.
Diário do Sul – O assunto da região esta semana foi o falecimento do jornalista Ênio Batista, que tinha apenas 43 anos e era saudável, mas sofreu um AVC fulminante. O que se pode tirar de lição deste caso?
Roger – Em primeiro lugar, registro a tristeza de acontecimentos como esse. Mas precisamos saber quantos casos desses existem pelo país. A saúde depende não apenas dos médicos, mas de vários fatores, como os genéticos e ambientais. Em muitas situações, a medicina tem limitações e pouco pode fazer. Precisamos passar para as pessoas além daquilo que elas pedem. Precisamos falar de ações de prevenção e promoção da saúde. Eu uso as redes sociais para falar das cinco atitudes que defendo: alimentação saudável, atividade física, sono adequado, equilíbrio de lazer e ter fé. A fé que eu digo é participar de ações sociais e ter momentos de meditação. Tem coisas que não dependem apenas de tomar o remédio na hora certa, precisamos ter uma visão de saúde mais ampla. Algumas perguntas simplesmente não têm resposta.
Fonte: Diário do Sul.